Fátima Trinchão
Poesias, Contos, Crônicas
Textos

O RIO

 

Já se fazia sol alto naquele pedaço de chão de barro, poeiroso. Áquelas horas, não havia pé de gente naquela rua, nem nas próximas, nem se empoeirar naquela hora das matinas, nem lampejo de crianças a brincar de chicotinho queimado, os ruídos e gargalhadas infantis, não se ouviam, assim como não se ouviam também o grasnar dos pássaros e o latido do cachorro de rua, que em verdade não é tão de rua assim, é de todos aqueles que moram na comunidade, e também daqueles que lá não moram. Muito embora não latisse agressivamente, aquele cão caramelo, sarnento, esponjava-se no barro poeirento da rua solitária que era entrada, passagem e saída para todos os lados que se quisesse ir naquele pequeno lugar. Nas residências, portas e janelas fechadas, de quase todas. Uma casa ou outra deixava as janelas abertas, deixando entrar a poeira que insistia em transpor e permanecer e resistia aos excessos de limpeza de Joaquina. Joaquina, a nossa personagem que todos os dias, três vezes ao dia passava o pano nos poucos móveis que lhe preenchiam a sala e aspergia água ao solo para baixar a poeira, naquele chão de barro, quando  aos domingos Joaquina espalhava folhas cheirosas na pequena sala, que ao mesmo tempo era quarto, que ao mesmo tempo era cozinha, que ao mesmo tempo era sala de jantar e de estar. No tempo de chuva forte, quando voltava do rio,  ela estendia ali dentro, suas roupas e as roupas dos outros que ali moravam, de uma ponta a outra, para secar, depois de ventiladas  usando o velho ferro a carvão passava as roupas, isso quando na maioria das vezes, utilizava as mãos como se fossem ferros de passar, para deixar as roupas menos machucadas e mais apresentáveis.  Nem sempre era possível utilizar-se do ferro de passar roupas. Na maior parte do tempo, vestiam do jeito que estava. Já era um grande luxo, ter as roupas limpas, a falta d’água era uma constante e apesar dos tempos modernos, cuja alta tecnologia orgulha a espécie humana, a seca inclemente ainda assola o sertão. O céu azul, sem uma nuvem sequer que pudesse abrandar aquele calor de quarenta graus, os humanos, quase todos, abrigados daquele sol intenso, escondiam-se nas suas casas de pau a pique, deixando baixar o sol e abrandar o calor. Todas as semanas Joaquina saia de sua casa, com algumas trouxas de roupas para lavar no rio, isto é, aquilo que restou do outrora portentoso rio que cortava o povoado. Agora, o leito do rio secou. Algumas poças d’ água, aqui, ali e acolá em que se lavava as roupas e levava um tanto para beber e beber com parcimônia, onde se encontrasse água menos poluída. O rio distava da casa de Joaquina, da casa dela até o rio, andava-se um bom pedaço. Não poucas vezes, Joaquina relembrava que quando o rio estava cheio, encorpado, com correntezas. peixinhos das mais variadas cores e matizes, nadavam serelepes no leito do rio, cujo murmurejar, alcançava os moradores do lugar, suas famílias e habitações. O rio era assim. De curvas, cheias, secas e extremos. Era ele quem comandava aquele pedaço de torrão. Em tempo de estiagem, a escassez de água, ensejava dificuldades tais, nessa época, o rio só era reconhecido, pelas raras poças encontradas ao longo do leito.  Em tempo de chuva, o rio enche, enche, enche, cresce, impõe-se como o representante do lugar, torna-se caudaloso, e não poucas vezes, sai do seu leito, derrama-se pelas cidades, invade as vilas, levando tudo o que encontra pela frente, Casas, gente, bichos, lavoura, moveis e memórias. Joaquina sabia disso. Ela bem o sabia. Não esquecera, jamais esqueceria, o dia em que o rio transbordara do seu leito, espalhara-se pela cidade, derramando-se pelas ruas, sem limites e sem ninguém a contê-lo, como se de tudo que existia ali, ele, o rio, fosse dono e senhor, e decerto o era, o rio era uma presença e uma entidade sobre a cidade. Joaquina estava na rua, foi a quitanda buscar o pão do dia e o feijão e a carne seca de amanhã, não era longe, mas, também, naquela chuva, não era perto. Acompanhou a preocupação de alguns que buscavam retornar com rapidez aos seus lugares, aos seus abrigos, às suas casas. O céu todo cinza, nuvens pesadas, abatiam-se por sobre a cidade. Todos que ali moravam e mourejavam, se não estivessem em casa, buscavam apressar-se, antes que a tempestade desabasse. Ela também se apressava. A caminho de casa, os primeiros raios e trovões iniciaram a sua saga. Bátegas d’água caiam intensas por sobre a cidade. Raios cada vez mais pujantes riscavam os céus num espetáculo de luzes e cores que emanavam força e beleza, para alguns provocavam medos, que sequer tinham a coragem de olhar para o alto. “Valei-nos Santa Bárbara”. Joaquina chegou em casa", benzeu-se. Ave Maria! Rendeu graças. “Graças a Deus, cheguei, pensava ela, o pequeno lampião a gás foi aceso. Alumiava o que estava por perto. Sentou-se na pequena cama patente, de solteiro. Puxou os chinelos, cujas solas já estavam finas, desgastadas, e em algumas partes faltava-se o pedaço de couro que cobria rudemente, a sola daquele calçado. Trocou os sapatos pelos chinelos. Pôs os sapatos no canto do pequeno vão. Lavou o rosto e os braços. Acendeu o fogão a lenha, fez um café ralo. Joaquina sentou-se à beira da cama e enquanto tomava o café  ralo, ouvia os trovões rimbombando no horizonte e a tempestade lá fora caindo densa, intensa. Da cabeceira da cama, buscou o seu terço, fez o Pelo Sinal e desfiando-o rezou ante a borrasca que caia inclemente no chão outrora tórrido daquela cidade. Pedia Misericórdia aos Céus, aquela tempestade, parecia o fim do mundo. E os raios a riscarem os céus, Ela, Joaquina, estava deitada, ali tranquilamente no seu quarto, desde cedo chuvas torrenciais encharcavam o terreno do pequeno vilarejo, antes ressecado pela longa e insípida estiagem que de tempos em tempos assolava o pequeno vilarejo encravado nos vãos daquele sertão, mas, na sua memória permaneciam vívidas lembranças daquele dia fatídico de águas e águas a derramarem-se por toda a cidade. A chuva caía torrencialmente e o rio tornava-se cada vez mais cheio, Joaquina apegava-se a Deus e a todos os Santos, chamando particularmente por Santa Bárbara, trovões e raios rasgavam os céus do lugar, rimbombando com uma fúria, que a tudo e a todos estremecia. Era para viver, viver e poder contar, certamente que aquelas horas de angústia ficariam impregnadas na memória de todos que àquela área habitavam. Rezando, dormira. Sono pesado, mesmo naquela borrasca. Dormiu. E a tempestade continuava. O rio inchou. O rio fugira do seu leito, tomara as ruas da cidade, primeiro, aos poucos, timidamente, as vias mais próximas, após derramara-se por toda a cidade, invadindo as ruas, as casas, quintais, os comércios, as igrejas e as residências. Não deixaria de invadir, portanto, a casa de Joaquina. Foi assim, mansamente, sem fazer zoada, ruido sequer. Joaquina dormia profundamente. A água já tomara toda a sua casa, subindo, devagar, devagarinho, chegando a cama onde Joaquina se encontrava descansando, dormindo a pleno sono, intensamente. A água do rio tomou-lhe o catre e molhou as suas vestes parcas. Virou-se de um lado para o outro, pensou que aquela sensação de frieza era um pesadelo, no entanto, não poderia se deixar engodar, apesar de ter mudado de posição durante o sono, ainda sentia a estranha sensação de ver molhadas as suas roupas, sem querer, mas, sendo obrigada pelas circunstâncias, Joaquina abriu os olhos. Estendeu as mãos. Encontrou a água fria quase gélida, escorrida do rio, atingindo a  sua cama e molhando as suas vestes. Tentou de imediato levantar-se. Encontrou o que já havia percebido, a água fria e alta, já passando da cama, e sem saber o que fazer, logo percebeu que ninguém poderia lhe dar ajuda, um abrigo, pois os mais próximos e mesmo os mais distantes, se encontravam no mesmo infortúnio. Só lhe restava rezar. De pé na sua cama, já tomada pelas águas que lhe cobriam o leito, viu amanhecer o dia, tremia, dos pés à cabeça de frio. A tormenta arrefecia. Espaçavam os raios e os trovões, e aos poucos, as águas do rio retornavam mansamente ao seu leito, bem devagar, deixando no seu caminho a lama, somente a lama, feita de água e terra, com a qual Nanã modelou os seres humanos. Saluba Nana. Joaquina finalmente pode sentar-se na cama, mesmo encharcada servia para descansar as pernas e o resto do corpo. Quando cessasse a chuva, iria buscar sua vassoura de palha, recolher das águas seus objetos espalhados ao léu, suas lembranças, suas memórias. Que bom que as crianças não estavam em casa e nem os mais idosos, se estivessem seria uma bagunça em meio àquela intempérie. Acostumara-se a ficar sozinha, no silêncio da casa, ouvindo só o murmúrio das águas do rio no tempo de calmaria. Ao levar as roupas para lavar na beira do rio, Joaquina saudava as suas águas plácidas e cristalinas. Pedia-lhe licença para delas se utilizar na higiene de sua casa, de seu corpo e de suas roupas. Daqui a pouco chegaria o povo da casa, estavam preocupados com ela, certamente, seria uma alegria revê-los, ainda que os gritos e cantigas retornassem a casa, quebrando a paz do silêncio dos dias em que todos foram a vila mais próxima, a fim de responder a consultas agendadas pois, quando chegassem, encontrariam os seus poucos moveis e colchões estendidos ao sol na frente da casa e uma esperança enorme para o futuro. mas, a vida é assim mesmo, ela diria, igual *ao rio, ora seca tórrida, intensa, inclemente a invadir- lhe o leito, ora enchente, borrasca, procela, tempestades a tudo inundar, após diluvio. O rio, ao baixar suas águas lavou muita coisa. Lavou casas, gentes, histórias. Em toda a cidade, resquícios de terra, misturada as águas, lama ainda, varrida para o mato pelos moradores do local, vibrando para que, o mais breve, a cidade retornasse a sua normalidade com as águas voltando ao leito do rio, e a vida explodindo de esperança e alegriam o rio é origem da vida, sempre que possível, saudá-lo e agradecer-lhe por ser. Sejam suas águas mansas e plácidas, estejam suas águas agitadas, altivas, turbulentas. O rio, era desse jeito, pensava Joaquina, imprescindível na vida de todos nós. Dele caminham as águas que chegam as nossas torneiras e nos lavam os corpos, as mentes e as almas. O rio, além de ser uma formação esculpida pela natureza, são  presentes de Deus constantes na vida humana ou não, o rio e suas águas,  sagradas que são,e assim é, desse jeito e dessa forma, conclui Joaquina. O rio continua existindo e bravamente resistindo as intempéries e a sanha devastadora dos humanos. Ainda assim, Joaquina aprendeu a amá-lo mais ainda, não só nos dias de calmaria, de paz, mas também nos outros dias em que a natureza se une para mostrar a sua força e grandeza indomáveis. Para Joaquina, o rio não é somente um acidente geográfico, mas, o Rio é, sobretudo, uma Entidade, dessas presentes na vida dos humanos ad infinitum. Ita erat, ita erit, ita est. Sempre foi assim, assim será, e assim é.

 

 

Fátima Trinchão
Enviado por Fátima Trinchão em 16/05/2026
Alterado em 16/05/2026
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