No dia 14 de maio 1888,
As porteiras escancaradas.
Das senzalas,
portas e janelas abertas,
Os pelourinhos derribados,
Chicotes ao léu, jogados ,
Seus feitores entristecidos,
‘’Não há mais a quem barbarizar’’,
Perseguir, constranger, torturar.
Os outrora senhores, desesperados.
Das terras de grandes alqueires,
Café,
Não há mais quem semeie,
O açúcar
Não há mais quem ensaque;
O algodão,
Não há mais, quem os colha.
Sinhá está devastada,
Sinhá está desolada,
Sinhá está alquebrada.
A porteira escancarada,
Sinhá olha pras estradas,
Vê estrada de gente, entupida.
Eles olham para as estrelas,
Liberdade, outra vida.
Eles
Vão saindo aos magotes,
Não sabem para onde vão.
Caminhando, um só caminho
Não dizem se plenos de flores,
Não sabem se cobertos d’espinhos,
E eles caminham a pé,
E O que lhes move é a fé,
Eles marcham pra liberdade,
Não há escolhos que os impeçam,
Nem escolhas que se lhes ofereçam,
Mais vantajosas que pareçam,
O escopo é um só.
Liberdade e igualdade.
Buscamos um mundo novo,
E um proposito maior,
Dignitatis sit
Direito a vida e a dignidade,
São estes os nossos anseios,
Esta é, a nossa verdade.
Mulheres e seus maridos,
Mulheres sós, sem maridos,
Mulheres e suas crianças,
Mulheres e suas iguais,
Almejam paz e bonança.
Eles marcham para a liberdade,
Almejam paz e bondade.
Sem emprego, sem acerto
Sem casa, sem lar,
Onde cobrir a cabeça¿
Onde podiam ficar ¿
Deus que a tudo sabe,
Deus que a tudo provê
Deus que A tudo provê,,
E a tudo proverá.
De todos Ele cuida,
De nós, também cuidará.
Jornadeavam pelas estradas
A caminho das grandes vilas,
Cortiços e tudo o mais
Tu Regulas, tu vigias e, também
tu punirás.
Eles, suspeitos que agora são,
sem futuros, sem porvir.
Perseguem a esperança,
Sobem a trilha,
Devagar,
Rumando aos grandes morros,
Entre sonhos e desafios,
Suor lhes escorre já,
A lei assim nos propõe,
a lei assim nos impõe
nos impõe e imporá.
Regular, punir, vigiar,
Em volta dos grandes morros,
Barracos clamam socorro,
No alto, bem alto,
percorro,
Entre sonhos e desafios,
o suor, o corpo alquebrado,
o cansaço, o desvario,
o suor
lhes escorre,
lhes escorre,
escorrerá,
Na luta que é insana,
na luta de quem padece,
A alma não esmorece
O corpo cansado está,
o corpo cansado já,
mas o corpo não fenece,
E o suor, escorrendo, desce.
A cada gota de suor que cai,
É mais um degrau que se ergue,
É sangue que a terra, semeia
Entre sonhos e desafios
o suor lhes escorre em bátegas,
Na luta que é bruta e
Injusta,
Cada gota de suor que cai,
é mais um degrau que se ergue,
Na esperança, prossegues,
de paz, liberdade e bonança.
’Não há mais a quem barbarizar’’
Somente e tão somente,
regular, punir, vigiar.
Perseguir, constranger, torturar.
A luta é tão bruta, injusta,
Presente, nunca tardia,
Infiel é a balança,
nos tempos de outrora,
um dia
E nos dias do dia-a-dia;
Deus que a tudo sabe,
Deus que a tudo provê
Deus que a tudo provê,,
E a tudo proverá.
E De todos Ele cuida,
De nós também, cuidará.
A porteira escancarada,
Sinhá olha p'ras estradas,
Eles olham p'ras estrelas,
felizes ao poder vê-las,
caminhando um só caminho,
e eles caminham a pé,
De pés calçados, descalços,
E o que lhes move,
é a fé.