Fátima Trinchão
Poesias, Contos, Crônicas
Textos

A BENÇÃO MEU PAI

           

 

                 Domingo de sol  em Salvador .   Caminhávamos de mãos dadas, cabelo cortado a escovinha, sapatos pretos já me apertando os pés, calça já encurtando, camisa pra lá de apertada, esgarçando os botões, a mão presa na mão do meu pai, que me conduzia e caminhava a passos largos, obrigando-me a correr com minhas pernas pequenas e curtas. Todos os domingos era aquele trajeto, mas, naquele domingo seria diferente. Homem alto, músculos enrijecidos no dia a dia da estiva, cobria-lhe a cabeça, protegendo-a do sol, um chapéu estilo panamá, calça passada na goma, branca, bem vincada, por ferro de carvão, sapato social preto e branco, paletó no mesmo pano da calça, era sua roupa de festa, que vestia aos domingos ou sempre que havia um acontecimento ou visita a ser feita. Já deveria estar na casa dos quarenta anos, meus olhos parecia-me que ele sabia tudo. Pequeno, ao segurar sua mão não tinha medo de nada, olhava para cima e eu via, a voz calma e firme, conversava coisas que, aquela époa eu não entendia. Caminhávamos debaixo do sol radiante que sempre lembrava a primavera na velha cidade de Salvador, e no domingo, sempre as oito horas da manhã estávamos llá, solenemente assistindo a missa na igreja do Rosário dos Pretos, no Pelourinho, e no percurso entre a nossa modesta casa e a igreja meu pai encontrava amigos, camaradas, conhecidos seus, e a mesma recomendação: “Quando encontrar as pessoas mais velhas, lhes tome a benção.” Eu prdia-lhes a benção, eles abençoavam e falavam coisas que eu ainda não entendia. Depois da missa, as pessoas conhecidas, mais próximas trocavam palavras, exprimiam votos de felicidade e boa sorte para o pequeno e toda a família e nos despedíamos. Subindo ou descs, muitos negros foram mortos. Nunca se esqueça disso. Esta igreja foi levantada por nossos avós, a partir de 1704, nos dias de folga e durante a noite,levou cem anos para terminarem a construção.”.

As pedras escorregadias da ladeira do Pelourinho contavam, a quem tivesse ouvidos para ouví-las, as nossas histórias. Descíamos o Pelourinho, caminhávamos pela Baixa dos Sapateiros em direção ao Terminal da Borroquinha, lá aguardávamos o ônibus que nos conduziria ao bairro do Engenho Velho, numa pequena casa simples de taipa, meu pai parou a porta e , num bater de palmas chamou : “Ó de casa....

Ó de casa......”

E de lá de dentro respondiam:

- Ó de fora...já vai...”

Ao redor da casa, enorme quintal, muitas frutas, gatos e cachorros, pássaros livre voando de uma árvore para outra, micos que, serelepes, pulavam de galho em galho, inaugurando uma manhã. Uma senhora de idade já avançada, com dificuldades, veio para nos abrir o pequeno portão de madeira,. Meu pai entrou primeiro, tomou-lhe as mãos e lhe pediu a benção.

- a benção minha mãe Eulália...

- Oxalá que lhe abençoe e lhe proteja. Quem é esse ?

- Este é meu filho, minha mãe, está com cinco anos...menino, tome a benção a mãe Eulália...

Não pude deixar de observar, aquela senhora já bem idosa, com a roupa toda alva, cabelos igualmente alvos, apoiava-se numa bengala, curvada pelos anos, transmitia-me para e alegrias incontida, ao mesmo tempo em que convidou-nos a entrar .

- quanto tempo vosmice não vem aqui...

- Pois é minha mãe, é a vida, o trabalho, a família...

- E Mariinha ? como está ?

- Mariinha está bem, ficou em casa...

- E o menino, como se chama ?

- Tem o mesmo nome meu...

A partir daí começaram a conversar e relembrar amigos, parentes, conhecidos, gente que já se foi, gente que está para vir. Pedi ao meu pai para me levantar e ver o lado de fora do terreiro. Ele pediu a avô Eulália permissão, ela deixou. A casa tinha um chão de barro, e depois de uma boa prosa, vô Eulália, como ela quis que eu a chamasse, me serviu uma caneca d’água fria e gostosa do porrão que estava no canto da cozinha de fogão a lenha. Os gatos prguicosamente passeavam no terreiro, as galinhas, acompanhadas dos seus filhotes, ciscavam pra lá w pra cá, e de quando em quando pegavam um inseto, uma minhoca e se deliciavam, dessa forma a cadeia alimentar ia-se confirmando. Quando o vento dava, um sem -numero de folhas ia caindo das árvores, deixando no chão um tapete verde e amarelo, que de quando em quando o vento levantava, fazendo festa; conviviam bem naquela terra os gatos, cachorros, pintos, gansos, galos e galinhas,respeitando-se e sobrevivendo. Depois de muito prosear, meu pai levantou-se, e disse: ”Vou chegando...” Tomou a benção a avô Eulália, e depois foi a minha vez. :

- A benção, meu filho¹, minha vô Eulália....

- Oxalá que lhe abençoe! Meu filho.

Ao retornarmos meu pai tomou a direção do Elevador lacerda, Cidade Baixa. Atravessamos a pista. Fomos olhar os barcos. Passamos pelo Mercado Modelo, olhamos o mar. Meu pai gostava de olhar o mar. Passava horas e mais horas, olhando o mar. E me levava sempre com ele.me mostrava os barcos grandes e as pequenas canoas, me mostrava as redes dos pescadores, os peixes grandes que eles pescavam. Meu pai gostava do mar, meu pai amava o mar, e um dia, pçhando lá embaixo, na linha do horizonte, meu pai me disse:”Meu filho, nós viemos de longe, do Continente Africano, atravessamos o mar e viemos dar...nunca se esqueça disso...

- E porque vieram ?

É uma história longa, muito longa. Um dia você vai saber w vai entender...

Em casa minha mãe nos aguardava ansiosa; e ele relatou para minha a respeito do nosso passeio; disse da idade avançada de vô Eulália e do seu estado de saúde,disse das nossas incusões na cidade baixa, e a noite ao preparar-me para dormir, fui-lhe pedir a benção, como de costume:

- a benção meu...

- Oxalá que lhe abençoe....

- A benção minha mãe...

Oxalá que lhe abençoe.!

Cresci, estudando com muto esforço na escola pública, muito distante de casa, com esforço meu pai comprava a caneta e o caderno. A presença da cultura ancestral é intensa nesta cidade em cada esquina uma baiana e seus trajes típicos, seus bolinhos, sua culinária ancestral.

Uma professora em especial me chamava a atenção, professora de história, empolgava-se ao falar dos africanos, do Continente africano, dos povos que para cá vieram e ajudaram a construir o Brasil, dos Malês, da Revolta dos Malaês, e 1835, dos Revoltosos, da traição, da condenação, do degredo, as chibatadas, a morte, quatro dos líderes foram condenados a morte, e Pacífico Lucuan condenado a mil e duzentas chibatadas. Ia sabendo mais,como gostava muito de ler, ia buscando mais nas bibliotecas do bairro e da escola. O esforço para continuar nos estudos era grande, o tempo passava, os pais envelheciam, comcei a trabalhar para ajudar em casa, estudava a noite; um dia meu pai sentiu-se mal, mal-estar, esse que o fez ser levado às pressas para o hospital, só soube quando cheguei em casa, a vizinha me deu o recado deixado por minha mãe. Sem jantar nem me alimentar de nada, segui em disparada para o hospital. Ele já estava em seus últimos momentos, tudo o que era possível fazer foi feito. Os médicos então nos autorizaram a vè-lo. Estava brm abatido. O tempo e a velhice o tornaram um homem frágil, com rugas intensas e vincos profundos na testa, as mãos tremulas...aproximei-me, chamou-me para mais perto, num esforço estendeu-me a mão, apertei-lhe a mão, e num átimo, lembrei-me dos nossos momentos de longos passeios e conversas, de quanto aprendi com ele.

- Tudo bem meu pai ? Meu pai, como está o senhor ?

- Tudo bem....

Já se avizinha a partida ...

-- Não pude conter as lágrimas . tentei disfarçar. Que nada meu pai, o senhor ainda tem muito tempo pela frente...

- Nada, meu filho a hora é agora...

-.....

- Meu filho, já está na hora, já vou partir...

- A benção meu pai...

- Meu filho, Oxalá que lhe abençoe, a você e aos meus netos. Nunca se squeça meu filho, dos ensinamentos aprenidos com a dor. Oxalá que lhe abençoe.

E partiu.

Anos mais tarde, formado em Economia, casei-me, tinha junto a mim, a família e a condição social sonhada, nasceu-me o primeiro filho,yodos eramos alegrias e agradecimentos; a minha mãe, por ser avô pela primeira vez, lembraca-se com frequencia de quando eu era pequeno, e dizia que o menino parecia muito comigo e também com meu pai; ele crescia , começou a balbuciar as primeiras palavras, chamou pela mãe, pela avô e por mim. Um dia quando cheguei do trabalho, ele veio , meio l=a, meio cá, trôpego, dizendo algo que eu não entendia. Minha mãe olhava de longe e eu lhe dizia: “O que é rapaz?, eu não estou entendendo...E ele falava e ria e olhava para minha mãe, correu para ela, voltou e me disse:

- be...ben...bença, pai....

- Meu filho, Oxalá que lhe abençoe!, e nunca esqueça meu filho, a luta é grande e contínua. O velho ditado africano ressoa nas minhas lembranças, palavras eternizadas pela saudade. “Nunca se esqueça dos ensinamentos aprendidos com a dor:” .

Nova aurora, novos dias, que o porvir seja bom e bem vindo para todos.

Oxalá que nos abençoe.

 

 

 

(Bahia, Brasil .publicado nos cadernos Negros n.  34 - Contos Afro Brasileiros, Págs. 81 a 88

2011) Editora Quilombhoje.

 

 

 

 

 

 

 

Fátima Trinchão
Enviado por Fátima Trinchão em 26/07/2026
Alterado em 28/07/2026
Comentários